Sobre escutar o que não é dito

Ele era empresário. 48 anos. Família bem. Saúde em dia. Bem-sucedido por qualquer medida externa que se use.

A queixa era simples: começou a perder a satisfação com as conquistas. Uma apatia que não conseguia nomear passou a fazer parte do café da manhã, das noites mal dormidas, do sorriso mais escasso, da dispersão outrora inimaginável.

Em determinado momento da sessão — o assunto era outro, completamente outro — ele parou.

Silêncio.

Sustentei esse silêncio. Havia no ar algo em suspense.

Minutos depois, um choro compulsivo. Sons guturais. O tipo de choro que não pede licença, transborda. Ele tentou conter, olhou para mim e, naquele momento, eu senti o quão a plena presença do terapeuta é fundamental como sustentação. O choro transbordou rompendo todas as barreiras. Ofereci o lenço e o silêncio assertivamente acolhedor.

Estava guardado o luto pela morte do irmão mais velho — cuidador, parceiro, presença constante no início da adolescência. Nunca elaborado. Nunca nomeado.

A apatia não era falta de motivação.

Era um luto que nunca teve espaço.

Nenhuma técnica abriu aquela porta.

Foi o silêncio sustentado com presença inteira.

Aprendi ali, na prática, que escutar vai muito além das palavras.

O que o cliente não diz é, muitas vezes, o que mais precisa ser ouvido.

Desenvolver essa escuta — a que percebe o que não foi dito, a que sustenta o que não tem forma ainda — é parte do que proponho no trabalho que faço com terapeutas.

Se isso ressoa em você, me conta.