As pessoas lembram das feridas. Mas se esquecem das forças.

As pessoas lembram das feridas. Mas esquecem das forças.

As pessoas costumam lembrar das feridas.
Mas raramente catalogam as forças que as permitiram atravessar tudo isso.
Trago a vocês este relato com respeito e reverência a tudo o que compõe e pode despertar em nós.
J., 47 anos, atravessava um dos períodos mais difíceis de sua vida.

Durante muito tempo, precisou lidar com perdas, incertezas, mudanças e situações que exigiram dele muito mais do que imaginava possuir.
Em determinado momento da nossa conversa, comentei o quanto admirava a forma como havia atravessado aquele período.

A resposta veio quase imediatamente:
“Não há nada para admirar.”
Aquela frase me fez pensar.
Porque, ao longo dos anos, tenho observado algo semelhante em muitas pessoas.
Elas costumam lembrar das feridas.
Mas raramente catalogam as forças que as permitiram atravessar tudo isso.
Lembram dos medos.
Das perdas.
Dos momentos em que quase desistiram.
Mas dificilmente param para reconhecer aquilo que descobriram sobre si mesmas ao longo do caminho.

Então fiz uma pergunta simples:
“Quais foram as três qualidades que mais ajudaram você a atravessar esse período?”
J. ficou em silêncio.
Pensou por alguns instantes.

E respondeu:

“Nunca pensei nisso.”

Como a resposta não vinha, propus outro caminho.

“Poderia me contar um pouco da situação e do que fez para atravessá-la?”

E algo interessante começou a acontecer.
À medida que narrava sua história, as qualidades começaram a surgir naturalmente.
Não porque eu as tivesse apontado.
Mas porque já estavam presentes na própria experiência.
Enquanto falava, foi percebendo recursos internos que jamais havia nomeado.
Qualidades que estavam tão incorporadas à sua forma de agir que haviam se tornado invisíveis para ele.

E isso acontece com frequência.
Aquilo que nos permite seguir adiante costuma receber menos atenção do que aquilo que nos faz sofrer.
O olhar se fixa na dor.
Mas raramente se volta para a força que permaneceu viva dentro dela.

Ao final da conversa, compartilhei uma reflexão que considero valiosa.
“Esse é o seu tesouro.”
“Esse é o seu ouro.”
“Se aproprie dele.”
“Leve isso para todas as áreas da sua vida.”

Porque existe uma diferença importante entre sobreviver a uma travessia e compreender o que ela revelou sobre nós.
Muitas pessoas saem de períodos difíceis carregando apenas as cicatrizes.
Mas existe outra possibilidade.

Reconhecer também os recursos internos que se fortaleceram ao longo do caminho.
Não para romantizar a dor.
Não para transformar sofrimento em virtude.
A dor continua sendo dor.
As perdas continuam sendo perdas.

E algumas experiências jamais deveriam ter acontecido.
Mas, ainda assim, algo pode ter sido revelado.
Por isso, talvez exista uma pergunta que mereça ser feita depois de toda grande travessia.
Não apenas:
“O que essa situação tirou de mim?”
Mas também:
“O que essa travessia revelou sobre mim?”

Porque algumas das qualidades mais importantes da nossa vida não aparecem nos períodos de conforto.
Elas se revelam quando somos convidados a enfrentar aquilo que jamais imaginamos precisar enfrentar.
E, às vezes, o verdadeiro tesouro de uma travessia não é aquilo que recuperamos no final.
É aquilo que descobrimos que já existia dentro de nós.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *