Quando ser escolhida parece dizer quem você é
Ela estava no sofá, rolando a tela.
Casais.
Viagens.
Aniversários de namoro.
Declarações de amor.
Tudo parecia dizer a mesma coisa:
“Todo mundo foi escolhido.”
Enquanto ela falava, aconteceu uma coisa curiosa.
Por alguns instantes, deixei de ver uma mulher de trinta anos.
Vi uma mulher de muitos séculos atrás.
Porque a pergunta que ela fazia não era nova.
Durante muito tempo, muitas mulheres cresceram ouvindo — de maneiras explícitas ou silenciosas — que seu valor dependia do olhar de alguém.
Ser escolhida.
Ser desejada.
Ser aprovada.
Como se o amor recebido confirmasse quem ela era.
Muita coisa mudou desde então.
As mulheres estudam.
Trabalham.
Viajam.
Empreendem.
Lideram empresas.
Escolhem seus caminhos.
Conquistaram espaços que suas avós talvez nem conseguissem imaginar.
Mas alguns aprendizados atravessam gerações em silêncio.
Eles mudam de roupa.
Não desaparecem.
Por isso, às vezes, uma mulher inteligente, bonita e bem-sucedida olha para a própria vida amorosa e, sem perceber, faz uma pergunta muito antiga:
“Se ninguém me escolheu… será que falta alguma coisa em mim?”
Talvez essa seja uma das heranças mais silenciosas da nossa história.
Porque ela transforma o amor em medida de valor.
E, quando isso acontece, cada foto de um casal deixa de ser apenas a história de duas pessoas.
Passa a parecer uma resposta sobre nós.
Talvez o sofrimento não comece na ausência de um relacionamento.
Talvez comece quando acreditamos que um relacionamento validará quem somos.
Enquanto ela falava, lembrei da música lindamente interpretada pela Elis Regina:
“Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.”
Talvez não em tudo.
Mas, às vezes, em lugares muito silenciosos da alma.
E talvez seja justamente aí que a verdadeira liberdade começa.
Quando percebemos que algumas perguntas que fazemos sobre nós… nem nasceram em nós.




